Jan Svankmajer, é o mestre do surrealismo. Nascido em 1934 na República Tcheca, em seus curtas e filmes, ele brinca com o inesperado, o absurdo, o macabro, o delirante, em um mundo imaginário, que de forma original, intrigante e muito criativa, ele consegue reproduzir. Mesmo sem palavras, Jan Svankmajer se manifesta, faz pensar, questiona as condições humanas, a arte, a politica, a filosofia e tudo mais de forma surreal. Ele, que viveu a época em que a Rep. Tcheca era um país autoritário e dominado pelos Russos, teve seus curtas banidos por décadas. E é dificil imaginar, como sem tecnologia e vivendo sob um regime opressor, conseguia realizar obras como essas.
Em 2005, a Kino Video, lançou a primeira compilação de curtas do Svankmajer em dvd, o The Collected Shorts of Jan Svankmajer, contém 13, além de vários extras, incluindo um documentário com o mestre em pessoa falando de seu trabalho. Nesse dvd, duplo, estão os seguintes curtas:
A Game with Stones (1965, 9 min)
Punch and Judy (1966, 10 min)
Et Cetera (1966, 7 min)
Picnic with Weissmann (1969, 13 min)
The Flat (1968, 13 min)
A Quiet Week in the House (1969, 19 min)
The Fall of the House of Usher (1980, 15 min)
Dimensions of Dialogue (1982, 12 min)
Down to the Cellar (1982, 15 min)
The Pendulum, the Pit and the Hope (1983, 16 min)
Meat Love (1988, 1 min)
Flora (1989, 1 min)
The Death of Stalinism in Bohemia (1990, 11 min)
Food (1992, 17 min)
Mas ainda assim, muita coisa havia ficado de fora, e em 2006, a Kino Video lançou uma segunda compilação de curtas do mestre, o
The Last Trick (1964, 11 min)
Don Juan (1970, 31)
The Garden (1968, 19 min)
Historia Naturae (1967, 9 min)
Johann Sebastian Bach (1965, 9 min)
The Ossuary (1970, 10 min)
Castle Of Otranto (1973, 17 min)
Darkness / Light / Darkness (1989, 8 min)
Manly Games (1988, 12 min)
Com isso, se tem um total de 23 curtas. Mas fazendo uma pesquisa de sua filmografia. descobri que há mais dois curtas e um clipe dele, que não sei por qual razão, ficaram de foram dessas compilações.
E o mais estranho, pelo menos esses dois curtas, são duas de suas melhores obras.
Leonardo's Diary (Leonarduv denik) - 1972 - 12 min
Nesse belo curta, Jan Svankmajer da vida as obras de Leonardo Da Vinci com suas animações, entrelaçadas com flashes de cenas da vida real, oriundas não sei de onde, que deixam até aquela sensação de "Porque tinha alguem filmando logo isso, em tal lugar e momento?" e coisas do tipo. Além disso, os 12 minutos são acompanhados de uma bela trilha sonora.
Mas o mais incrivel e surreal de todos os curtas, e o que mais me estranha ter ficado de fora das compilações é esse:
Jabberwocky (Zvahlav aneb Saticky Slameného Huberta) - 1971 - 14 min
Jabberwocky é o que mais sintetiza o que é a obra e carreira de Jan Svankmajer. Surrealismo, como se tirado da mente fantasiosa de uma criança.
Jabberwocky (no Brasil, Jaguardarte), é o nome de um monstro que aparece em um poema do segundo livro, e o menos conhecido, de Lewis Carroll, contando histórias com a garota Alice, -- Alice Através do Espelho.
È um poema que Alice descobre no Livro do Espelho, e que só se consegue ler quando está refletido no espelho porque está escrito ao contrário, e que não parece ter sentido nenhum, já que a maioria das palavras são inventadas, esses poemas são sátiras aos poemas fantasiosos que as crianças inglesas daquela época tinham que saber de cor. Segue abaixo, o poema:
Jabberwockky
(Lewis Carroll)
'Twas brillig and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe.
All mimsy were the borogroves
And the mome raths outgrabe.
"Beware the Jabberwock my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird
And shun the frumious Bandersnatch!"
He took his vorpal sword in hand
Long time the manxome foe he sought
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.
And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!
One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.
And hast thou slain the Jabberwock?
Come to my arms my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!
He chortled in his joy.
'Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe.
All mimsy were the borogroves,
And the mome raths outgrabe.
Esse poema, foi traduzido para o português por Augusto de Campos, em 1971, com o titulo de Jaguadarte.
A tarefa de tradução é mais notável e difícil porque muitas das principais palavras do poema foram simplesmente inventadas. Algumas vezes elas são similares na sintaxe ou som às palavras de Carroll no que diz respeito a morfologia da linguagem para a qual se está traduzindo. Por exemplo, na tradução de Augusto de Campos "'Twas brillig" é traduzido como "Era briluz".
O Jaguadarte
(Lewis Carroll)
Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"
Ele arrancou sua espada vorpal e foi atras do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.
E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando atraves da floresta,
E borbulia um riso louco!
Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
Cabeca fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.
"Pois entao tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu.
Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
No curta, tudo é uma grande fantasia, como no poema e na mente de uma criança. Objetos, bem peculiares por sinal, chegam a tomar vida, de uma forma, que mesmo tendo visto uma centena de vezes, eu ainda me pergunto "Como foi que ele fez isso?", principalmente na cenda do canivete, é ver para entender o que estou dizendo. E como é de costume, sempre acompanhado e em sincronia com a produção musical, unica e encantadora.
Esse curta, foi descrito pelo próprio Svankmajer como "Uma amostra Freudiana do desenvolvimento de uma criança por todos seus estágios."