Século 21, Novembro de 2009. Me lembrando de como era dez anos atras, 1999, fim do século 20, vi bem os revivais que houveram dos anos 70 e principalmente 80, e agora temos o revival dos anos 90. Talvez o ultimo revival que seja lembrado assim, por se configurar uma década, já que na passagem de século, a internet revolucionou o modo como lidamos com musica e o resto, ainda esta se moldando. É claro que não houveram lá grandes nomes que se consolidaram de forma gigante como as da década de noventa, e que o que era de massa com qualidade, pulverizou-se. Vimos substituidos dos top 10, bandas de rock, por coisas como por exemplo, Eminem. As de rock, que se manteram no sucesso, são em sua grande maioria todas vindas dos anos 80/90 ainda, década da qual já estamos revivendo, Coldplay, U2, R.E.M., Red Hot Chilli Peppers, Foo Fighters, Slayer e etc. E não venham me falar das bandas de 00, porque a maioria são bandas revivais de décadas passadas, The Strokes, Franz Ferdinand e etc...ou é, fica dificil saber como se configurara os próximos revivais. Mas pelo menos, com essa aceleração, que vem misturando os tempos, revertendo a ordem antiga, considerada natural da evolução do tempo, faz com que a gente veja os revivais, com as bandas em forma ainda, como visto no Máquinaria Fest 2009.
Nação Zumbi, Sepultura, Deftones, Jane's Addiction e Faith No More. Line-up que muitos sonhavam ver na década de noventa, estavam para subir no palco. Sera que seria tão bom quanto ve-los em seus tempos de ápice de sucesso? O local estava perfeito para tirar essa duvida. Chacara do Joquei, palco de outros festivais, como o que teve Radiohead, e o que teve Sonic Youth, Iggy Pop & The Stooges e Nine Inch Nails. O dia, maravilhoso, sol aberto, calor, trânsito razoável, sem grandes filas e nem aperto. Com meu dinheiro suado, ainda consegui comprar a pista premium, para ficar na cara do palco, deixando o momento melhor do que poderia imaginar.
Debaixo do sol escaldante, sobrou pro Nação Zumbi tocar. Como sempre, colocar essas bandas fica mais parecendo filantropia ao rock nacional. Colocam, porque acham que devem colocar bandas do pais aonde o festival acontece. E como em quase todos os festivais, sobrou pro Nação Zumbi, embaixo do sol, tocar para um publico que ainda estava chegando e curtindo mais o ambiente do que o show. A banda é boa, claro, faz um bom show.
Esse video mostra bem o clima do show deles, reparem na galera chegando, a chacara ainda se populando e o solzão, além claro, de uma boa musica rolando:
Depois, veio o Sepultura, que não sei porque ainda mantém esse nome. Banda velha, já sem o mesmo peso de antes, sem o publico e o prestigio de antes. Mas eles tocam bem, então deu para aguentar o show e até acha-lo legal. Mas é o tipo de show, que a gente fica sonhando "poxa, teria sido mais legal em outro lugar". O Sepultura já pertence somente ao underground, fica melhor se tocar no Hangar 110 do que lá, mas beleza. Resolvi fazer até uma comparação de como eram as bandas nos anos noventa ao vivo, e como foram no Máquinaria Fest. Reparem a diferença que é o Sepultura:
Sepultura - Territory @ Sonoria Festival 1994
Sepultura - Territory @ Maquinaria Fest 2009
Mas não valeria mais a pena, ter deixado esses shows filantrópicos e ter usado o tempo para outras atividades diversas? Se o festival dizia ter mesmo toda essa porra de consciência, não seria uma coisa somente falada para soar legal, antenado e pagar de cool com publicidade relacionada as causas, até porque, se fizeram coisas não vistas pelo publico, como um bom descarte do lixo, não estão fazendo nada mais do que a obrigação. Poderiam ter feito algo realmente util, com consciência de que ir a um show desses cansa, e que só três bandas, intercaladas com descanso, atividades diversas, seria bem mais proveitoso. A pista premium, só oferecia a oportunidade de ficar de cara pro palco, de poder ir e voltar do banheiro para o mesmo lugar e só. O resto, era tudo igual, comidas caras, formas ainda não ideais de pagamento e diversidade. De brindes, lixo, revistas antigas dadas por modelos maquiadas, achando que fossem seduzir e passar um status de luxo, o que não cola. Quem pensa nesses festivais, não curte um som. Não faz parte da cultura de ir a shows e gostar da musica. Por isso só fazem merda, ainda guiados por qualquer bosta que dê lucro e os consiga convencer. Mas vamos falar das coisas boas dessa vida...
O festival, começou mesmo quando subiu ao palco o Deftones. Em sua terceira passagem pelo Brasil, mostraram estar em forma, com o pique e energia que tinham quando vieram pela primeira vez, em 2001, aonde tocaram para 200.000 pessoas no Rock in Rio 3. Pela primeira vez, a banda esteve também junto das bandas certas, um acerto na programação. Se em 2001, aguentamos O Surto antes deles e Capital Inicial depois, em 2007, tivemos que aguentar o Adrem, que pagou para tocar e ainda fez merda tocando covers como Coal Chamber e Slipknot. Mas agora, Sepultura antes, e Jane's Addiction e Faith No More depois? Para mim, que sou muito fã da banda, foi como ver a melhor banda do mundo, acompanhada por boa parte de seus mestres influenciadores. Boa parte da história sonora do rock pesado da década de noventa ali. O Deftones sintetiza o peso do Sepultura, a flexibilidade e experimentalismo do Faith No More e as mudanças para ares sonoros viajantes do Jane's Addiction, tudo misturado com suas outras influências, culpa do background diverso de cada um da banda, metaleiros, alternativos, hardcore e experimentalismo. Deftones é sentimento, é energia que vem do coração, é uma banda humana, mistura raças, pensamentos, formas de expressão, sonoridades e idéias, e a partir disso, sintetisam os sentimentos humanos, seja da raiva e do ódio, ou do amor e da esperança. Tudo isso, apesar de ser clara as influências, faz o som da banda ser unico. No show, não pouparam nenhuma fase, agrando a todos os fãs. Primeiro, começaram com uma nova, Rocket Skates, que é boa, pesada, quebrada e rápida, cai bem com uma boa sessão de skate mesmo. Depois, veio sons de todos os albuns. Nosebleed, Elite, Lotion, My Own Summer (shove-it), Hexagram, Head-Up, Feiticeira, Root, 7 Words, todas tocadas certinhas, no pique, mostraram que a banda esta em forma, e com raça, com vontade. Não há mais aquele climão de melancolia da banda, como havia em meados de 2003, quando estavam gordos, pareciam cansados e se desculpavam no experimentalismo. Tanto é que nesse show, Chino Moreno quase não tocou guitarra, e foram poucas as lentas, como Beware The Water e Knife Prty. Passenger, também foi tocada, pra alegrar geral. Em Hexagram, o classico do Chino ir pra galera, deixando para ver ao vivo, o que a maioria sempre sonhou vendo os videos, de ver os caras ali, em forma, no meio da galera, a um ou dois metros de distância. Quem viu o show da pista, não deve ter achado melhor que o de 2007, no Via Funchal, por causa do som, que não estava bom para quem estava afastado do palco. Mas a performance, a forma e a energia com que tocavam, foi bem melhor. Sergio Viegas, que tocava no Quicksand, trazia consigo muita alegria de estar tocando, e não devia ser a toca, carregando a história que carrega, de ter tocado no Quicksand e hoje estar tocando no Deftones, é como o Mike Watt do Minutemen, tocando baixo no Iggy Pop & THe Stooges, que também tocou na cidade no mesmo dia, mas em outro festival, o Planeta Terra. Finalmente também, a banda se encontra fora do rótulo "new metal", é já uma banda de rock, consolidada, conceituada, influenciadora, respeitada e criadora. Das três vezes que vi o Deftones no Brasil, esse foi meu show meu favorito, ele, por si só já fez valer a pena ter ido.
Deftones - My Own Summer (Shove It) @ Bizarre Festival 1998
Deftones - My Own Summer (Shove It) @ Maquinaria Fest 2009
Não gosto muito de ficar falando como foi cada musica, como foi o som e bla bla bla. 2009, isso vocês podem ver no Youtube. Século 21, lembram?
O Jane's Addiction veio na sequência. De fundo, pano com desenhos psicodélicos, no palco, uma banda em forma, afinada e profissional. Definharam seus melhores classicos, fazendo um show ali, que eu pelo menos, nem imaginava que seria possivel ver mais. Perry Farrell continua um ser exquisito, parece ser meio estrelão, mas garante um bom show. Chegou com um visual, querendo parecer o David Bowie, mas brasileiro flagra tudo, e ficou reconhecido mais como Ney Matogrosso mesmo. Esse visual e pose holistica, psicodélico de terapia de rico norte-americano importador de conhecimento oriental para enlatar e vender ao capitalismo consumista do ocidente, não colou muito. Aqui, no Brasil, Perry Farrell é brega e cafona. Mas veja bem, isso não fez com que o show não fosse algo nota dez. Para mim, o ponto alto não foi nem Ocean Size nem Been Caught Stealing, mas sim Stop!. Por ser a mais rapida, pancada, ainda assim meio funkeada e com partes viajantes, a cara do Jane's Addiction, das outras bandas do festival, e dos anos 90. E engraçado ver que o que entrava nos tops como "rock moderno" continua moderno até hoje. De uma banda importante, mas não lá muito reconhecida no Brasil.
Jane's Addiction - Been Caught Stealing @ USA 1991
Jane's Addiction - Been Caught Stealing @ Maquinaria Fest 2009
Mas a estrela da noite, a banda mais esperada de todas, a capitã levantadora da taça no dia, era mesmo o Faith No More. Uma coisa que vale lembrar que foi legal, foi a pontualidade dos shows, que começaram na hora. Mas logo antes de começar o show do Faith No More, começou a cair uma baita chuva, fazendo com que a produção tivesse que cobrir os equipamentos, esperando a chuva passar. Por sorte era um dia quente, e a chuva nem incomodou tanto, acabou até sendo gostosa. A banda entrou com tudo no palco, e lá, mostraram o porque são grandes, merecidores de todo o reconhecimento, tanto de terem criado sua própria sonoridade e estilo, como por terem influenciados diretamente estilos que vieram na sequência, como o new metal. Mike Patton, parece o ser de O Iluminado, louco, psico, chegou todo de vermelho, endiabrado, parecia o demo mesmo, com voz forte e bem grave gritava furioso e comandava, falou muito palavrão em português, como porra caralho, que virou o bordão da noite. Cantou também Evidence em português e mostrou carinho pelo publico, fosse indo lá cantar com eles, conversando entre as musicas ou até como fazendo uma brincadeira com o nome do grupo Secos & Molhados, já que ele estava sequinho e a platéia levando banho de chuva. O som da banda é estrondoso, eles vão além de ser um grupo de caras tocando, é uma orquestra, tudo certinho, em seu lugar, soando com maestria. É impressionante o tanto de som que fazem com tão pouco em mãos. O publico, era diverso, assim como o set tocado pela banda, tinha desde os da antiga, até a fãs mais novos, tanto quanto os fãs de Mike Patton, aqueles que idolatram qualquer banda em que ele se envolva, mas nada contra, até porque são todas boas mesmo, e o show veio a confirmar ao vivo sua geniosidade. De final, disse que apesar de ser o primeiro show da banda no pais, talvez seria o ultimo, o que pareceu sensato, apesar do show foda, não vejo a banda lançando material novo nem tendo o mesmo impacto que teve outrora, esperto eles. Sai de la satisfeito, por ter visto shows de bandas históricas e espetaculares em performances sensacionais.
Faith No More - Caffeine @ Rock Am Ring 1995
Faith No More - Caffeine @ Maquinaria Fest 2009
Faith No More - Epic @ Vina Del Mar - Chile 1991
Faith No More - Easy e Epic @ Maquinaria Fest 2009
E se hoje em dia, bandas de revivais tem feito os melhores shows. Imagina se o esquema do Sepultura vingar, o que veremos no futuro, serão nomes. Toca o nome, mas muda-se os integrantes. O Sublime tentou fazer como o Sepultura, mas foram barrados na justiça, e não podem mais tocar com o nome Sublime. Talvez vejamos uma volta do System of a Down, Korn e mais uma batelada de new metal, mas talvez ainda falte uns anos. Revival de Strokes, seria piada. De emo, vai demorar, mas talvez seja isso, revivais de generos e não de épocas. Não tem como saber como se configurará o futuro, mas também, foda-se, o importante mesmo é viver o presente, e ontem, ele foi sensacional. Vida longa ao bom rock!